Raio X

Recusa o rótulo de maior humorista português, mas admite ser o mais profícuo. No momento em que foi realizada esta entrevista, regressava à RTP com mais uma série do seu “talk show”, Herman José fala sobre o passado e o presente – o seu e o da televisão -, mas também sobre a inevitável passagem do tempo, a amizade, a religião e a morte.

Antes de começarmos esta conversa, esclareça uma dúvida: estou a falar com um português ou com um alemão?

Não está a falar com um português puro. Há muitas alturas da minha vida em que recorro à minha costela alemã. Consigo até instigar alguns desses princípios aos colaboradores e às equipas com quem trabalho.

Que princípios são esses?

Cumprir prazos, tentar não mentir profissionalmente, não arranjar desculpas para quando não se cumprem tarefas. E honrar a pontualidade, que é para mim essencial. Combinar, por exemplo, um jantar com amigos às nove da noite e estarem lá todos mesmo às nove. Nesse aspeto sou muito alemão.

Fica chateado quando isso não acontece?

Pior do que isso: vou-me embora. Já houve pessoas com quem deixei de me dar porque não eram pontuais.

E a sua “costela” portuguesa manifesta-se em que aspetos?

Numa certa desorganização, numa pitada de anarquia aqui e ali para tornar a vida mais interessante. Sou uma mistura curiosa das duas coisas, não posso dizer que seja nem uma nem outra.

“Costelas” à parte, o que queria mesmo saber é se, legalmente, é português?

Não. Sou completamente alemão. Quando falo disso recordo um dia, acho que em 1987, em que fui ao Brasil com o Mário Soares. Quando pediram os passaportes viram a minha nacionalidade alemã. O Mário Soares disse-me “então trago em missão oficial aquele que considero o melhor humorista português e descubro que, afinal, ele é alemão?” Prometi-lhe que aos 50 anos me naturalizava.

Bem, já passaram quase dez desde então…

Sabe que quando fiz 50 anos estava demasiadamente zangado com Portugal para sequer considerar ser um cidadão do país. Agora gostava de pensar em ter as duas nacionalidades. Vou ter de tratar desse processo, mas essa é daquelas coisas que são como as análises: ficam sempre para o ano.

Não sente que, de alguma forma, nunca se ter nacionalizado é uma injustiça para o país onde fez carreira?

Acho que a maior parte das pessoas não liga a isso. De qualquer forma, lógico seria ter as duas nacionalidades. Vou ter de tratar disso.

Ser, ainda hoje, apenas alemão é resultado da imposição que a PIDE lhe fez em 1970 [ou se naturalizava português e cumpria serviço militar ou teria de ir para a Alemanha]?

Só não cedi a essa imposição para não ter de ir para a guerra [do Ultramar] e para não estar sujeito àquela estranha ditadura em que somos tratados como meras peças. Era isso que acontecia na altura. Achei mais interessante fazer parte de uma democracia, como a que existia na Alemanha, e não de um sistema como o de Portugal até ao 25 de Abril de 1974. E se não tivesse sido a revolução teria mesmo de ter saído do país.

Os alemães teriam compreendido o seu humor ou seria como em Portugal: umas vezes sim, outras nem por isso?

Provavelmente estaria a trabalhar noutra área. Na altura estava inscrito na Escola Superior de Cinema e de Televisão, portanto o mais certo seria ter-me tornado numa espécie de Paul Verhoeven [realizador holandês], que também frequentou o mesmo curso. Uma coisa seria de certeza: um bom e ágil realizador de cinema e um excelente diretor de atores. Não sei se teria tido oportunidade de me dedicar à apresentação. Porventura não.

Os alemães são menos risonhos ou menos bem humorados do que os portugueses?

Não há diferenças. Não se pode dividir o público entre alemães e portugueses, mas sim entre gente desempoeirada, interessante e sem complexos e gente anquilosada e complexada. É uma divisão transversal.

Só se ri à vontade e sem complexos quem está bem consigo próprio?

Exatamente. E quem não está bem arranja sempre maneira de acabar com a brincadeira, nem que seja pelas vias mais perversas e subterrâneas. É um fenómeno estranho.

O Herman sempre se riu de si próprio?

Nem pense nisso! Detestava o meu humor quando andava da escola alemã.

Porquê?

Porque sabia bem os efeitos avassaladores que tinha para uns e divertidos que tinha para outros. Tive reações gravíssimas de professores com quem brinquei, de quem fazia caricaturas. Tudo o que me aconteceu posteriormente na vida, com instituições, aconteceu com esses professores: gente que fingia que me adorava e que, no fundo, andava a preparar o meu enterro pelas costas. Ou o meu chumbo. Também havia os que me adoravam mesmo, os que me apoiavam e os que eram frontalmente contra. Esse padrão desenhou-se logo quando ainda era estudante.

Era bom aluno?

Não. Era brilhante pontualmente. Quando me apetecia ser.

Ainda é assim: brilhante pontualmente e apenas quando lhe apetece?

Sou assim em tudo na vida. Quando me dedico seriamente a qualquer coisa consigo resultados fantásticos. O meu drama está na continuidade. Sou aquele tipo de pessoa que, se fosse dona de casa, deixava a louça acumular três dias para a lavar apenas ao quarto. Ficava tudo limpinho, até chegar a altura de voltar a acumular mais três dias…

“O desafio é sobreviver, apesar do desamor”

Vai fazer quarenta anos de carreira em breve…

Só no outro dia é que descobri que comemoro a data a 27 de janeiro. Estreei-me no programa do Artur Agostinho No Tempo em Que Você Nasceu. Fazia parte do coro da banda residente, que se chamava In-Clave e era dirigida pelo maestro Pedro Osório.

Quatro décadas merecem uma comemoração pública?

Apenas de forma simbólica. Não sei se se justificará ter isso como título genérico do Herman 2013. Acho um bocadinho redutor, mas pode acontecer. Viver quarenta anos já é difícil, ter quarenta de carreira é muito interessante.

Ao final deste tempo, a criatividade do “verdadeiro artista” alimenta-se da mesma fonte?

A minha fonte principal são os espectáculos. Foi um círculo que se fechou quando redescobri esta minha vocação, a minha felicidade e a minha capacidade de ganhar dinheiro ao vivo. Quando comecei, os artistas ganhavam no teatro cerca de nove contos [45 euros] por mês. Eu fazia 25 contos [125 euros] por espectáculo. Era uma grande diferença.

Foi isso que o fez ganhar fama de rico…

É verdade que tinha uns carros bestiais, mas só porque fazia espectáculos. Os meus colegas é que achavam que era dinheiro de família. Depois, nos anos 1990, deixei de os fazer e dediquei-me só à televisão, que também começou a pagar-me bem.

Atualmente, contratá-lo para um espectáculo é caro?

Não é só a mim. A estrutura é cara. Músicos, palco e som implica investimento. É por isso que a qualidade não pode ser assim-assim, nem sequer boa. Há a obrigação absoluta de se sair dali com uma taxa de agrado de cem por cento. Esse é um exercício de humildade extraordinário. Partir sempre do zero, como se fôssemos para uma tourada, em que o touro é o público.

Se é aos espectáculos ao vivo que vai buscar inspiração para o seu espírito criativo, o que é que um programa como o Herman 2013 lhe dá enquanto entertainer?

A possibilidade de entrevistar de forma diferente. Já ganhei um tipo de prática, de cultura e de ligação às pessoas que me permite fazê-lo. Repare: o próximo presidente da República vai ser mais novo do que eu, portanto, até esse vou poder entrevistar de outra maneira. Não é por acaso que na América se dá muita importância aos entrevistadores com uma certa rodagem, que passam a ter uma certa autoridade para fazer um certo tipo de perguntas ou abordar um certo tipo de assuntos.

O dar importância aos profissionais mais rodados acontece na TV portuguesa?

Não. É assim em todos os países pequeninos. As novas gerações acham que ser poderoso é cortar com as anteriores, que ceder aos mais velhos é um símbolo de fraqueza. Ao contrário da tendência que se verifica nos EUA, ou mesmo na Ásia, com o fascínio pelos mais sábios, cá há uma necessidade grande de “agora somos nós, tirem lá daqui os outros rapidamente. Foi porreiro, ganharam o que tinham a ganhar, agora é a nossa vez”.

Já sentiu isso?

Sinto-o há muitos anos. Desde… há dez anos. O desafio é sobreviver, apesar do desamor. Mais uma vez, a vantagem dos espectáculos é que democratiza isso completamente. No outro dia, na Foz [Porto], estive uma hora e 49 minutos a dar autógrafos. Os que estavam no fim da fila, os que estiveram hora e meia à espera, permaneceram ali porque estavam com filhos de 8 e 7 anos que não desistem, que são meus fãs e que só saíram de lá depois de lhes fazer um desenho. Isto é empolgante e pulveriza qualquer argumento.

As crianças de 8 e 9 anos são suas fãs por causa dos espectáculos?

Por causa do YouTube. E muito por causa dos pais. Herdam deles o fascínio por mim.

Sempre teve consciência desse fascínio?

Não. Ou pelo menos tinha-a perdido. Só a tenho porque, lá está, voltei aos espectáculos. A partir do momento em que batemos recordes e em que esgotamos salas é porque as pessoas gostam de nós. Foi preciso voltar à estrada para voltar a ser feliz.

Num estúdio de televisão não tem a noção de que há quem goste de si?

Em estúdio tudo nos é indiferente. As pessoas são pagas para gostar sempre. Seja de mim ou de uma piada do [Manuel] Luís Goucha, da Cristina Ferreira, da Júlia Pinheiro, do Jorge Gabriel. As pessoas riem-se sempre. Estão a ganhar para isso. Agora, metam essas pessoas num espaço ao ar livre, com alguém em cima do palco, e é ver se aguentam duas horas sem ir embora.

O seu regresso aos palcos foi fruto da necessidade de se sentir acarinhado?

O meu regresso surgiu porque a determinada altura da minha vida senti que havia qualquer coisa que estava tremendamente errada e não entendi bem porquê.

Errada consigo?

Comigo, com a minha carreira, com o momento que estava a viver. Havia ali qualquer coisa que não estava a fazer sentido. E então fiz como quando queremos restaurar um computador: aparece-nos uma alínea a perguntar a partir de que ponto queremos fazê-lo. Eu parei e pensei: “A partir de quando é que deixaste de ser feliz como artista? De te sentires realizado?” Cheguei à conclusão de que foi a partir do momento em que deixei de me apresentar ao vivo.

Nem a compensação monetária de quem é um dos “reis” do humor e do pequeno ecrã o motivavam, o deixavam feliz?

É verdade que ganhava muito dinheiro só a fazer televisão, mas depois ia à pressa gastá-lo, principalmente em viagens não produtivas. Agora, quando faço uma viagem é em trabalho, embora aproveite para me divertir.

“Admito ser o mais profícuo humorista português”

Quando olha para o trabalho que desenvolveu em televisão, qual é a sua verdadeira obra-prima?

O Crime na Pensão Estrelinha. Foi feito com o melhor dos dois anos em que escrevi para a TSF. É verdadeiramente a minha obra-prima. É um programa que ainda hoje me espanta. Mais nenhum outro o faz. Eu vejo e revejo tudo o que fiz sem problemas e acho que era um profissional esforçado, com algumas coisas melhores e outras piores, outras ainda horríveis, mas o Crime na Pensão Estrelinha é bom de uma ponta à outra.

Esse programa foi exibido há 23 anos, na noite de 31 de dezembro de 1990. A maturidade e o crescimento não foram, até agora, capazes de o fazer superar-se?

O problema prende-se com os meios. Nunca mais haverá orçamento e uma conjugação de talentos para fazer um programa assim. Desde que há as privadas, as televisões passaram só a investir naquilo que dá lucro e o humor não dá grande lucro. É sempre um parente pobre.

O que é que dá lucro?

Novelas e alguns concursos. Dou-lhe um exemplo com os meus ídolos atuais, a dupla [Matt Lucas e David Walliams] de Little Britain. Tiveram seis meses para fazer oito episódios gravados em filme. Eu, quando fiz o Hora H para a SIC, num ano gravei 44 programas. Veja a diferença. É impossível ser-se excelente a trabalhar à pressa.

Cresceu artisticamente ao lado de Ana Bola, Vítor de Sousa, Maria Rueff, Maria Vieira, Manuel Cavaco, Margarida Carpinteiro, entre outros. É o maior humorista português?

Não, mas admito ser o mais profícuo. Nunca ninguém escreveu tanto, gravou tanto, lançou tanta gente e fez tantos espectáculos.

Em algum momento sentiu que houve quem se aproximasse de si por interesse?

Tirando o amor de mãe, toda a amizade é uma troca. Há é quem peça muito pouco em troca. São esses que estimo e preservo. Mas também não sou nenhum Francisco de Assis…

Sempre distinguiu as amizades verdadeiras das falsas?

Não penso muito nisso. O tempo encarrega-se de fazer a triagem. O lema da minha vida é cada vez mais carpe diem.

“As televisões privadas vivem só e cada vez mais em função dos números”

A sua passagem pelas privadas, tanto a SIC como a TVI, fez melhor à sua conta bancária do que ao seu génio criativo?

Nem isso, veja bem. Quando em 1999 saí da RTP, fui para a SIC ganhar a mesma coisa. Nem sequer economicamente foi muito bom. Saí por duas razões. Uma foi o entusiasmo do Emídio Rangel [na altura diretor de Programas e de Informação da SIC]. A outra foi a mudança de administração da RTP. Preferi trocar uma gente que gostava relativamente de mim por um tipo que estava em estado de paixão.

Quando é que esse estado de paixão se transformou em pesadelo?

Quando a SIC entrou em pânico por causa do Big Brother na TVI. Acabámos a fazer experimentalismo para ter audiências. O Herman SIC era um programa caríssimo, que envolvia imensa gente e ocupava duas horas e tal de programação. Às tantas, já fazia o possível e o impossível para não sermos esmagados pela concorrência. Foi aí que começou a haver uma erosão da lado artístico em detrimento de acontecimentos que de artísticos não tinham nada e que me esvaziaram muito na altura.

Então foi suicídio ou assassinato artístico?

Foi excesso de esforço. É como um maratonista, que está tão em pânico por ao quilómetro 20 não estar a ganhar que desata a correr e quando chega à meta está destruído ou exausto. Isto se não morrer antes. O regresso à RTP devolveu-me a vertente de corredor de fundo. Aqui é possível colocar a convicção, a paixão e o sentimento artístico à frente da voragem das audiências. Por enquanto. E por isso é que este programa continua e o faço com tanto prazer.

Olhando para a atualidade, em que é que os problemas da RTP afetam o Herman 2013?

A minha liberdade criativa é total. Desde o tempo do [José] Fragoso que assim é.

Admitiria continuar num programa de autor sem liberdade criativa?

Felizmente ainda não fui posto à prova nesse sentido. Não houve um minuto, um segundo sequer, a condicionar seja o que for. Isso é um privilégio fantástico. Se calhar também o tenho merecido, na medida em que tenho feito de tudo para que haja equilíbrio no programa. Equilíbrio político, de conteúdos, de convidados. A condicionante é apenas económica, mas não me queixo.

O seu orçamento pessoal foi encolhido à semelhança de outros rostos do canal?

Eu faço parte do pacote da produção. Sou extra-RTP… Olhe, ainda não fiz estas contas [pega no telemóvel para fazer cálculos]… Hoje ganho por programa… menos 76 por cento do que ganhava quando saí da RTP, há dez anos. Mas continuo a dizer que não me queixo.

É um reflexo do estado da estação?

E do país. Digo isto completamente sereno, sem nenhuma dor. Estou a fazer o programa que quero e onde quero. Dinheiro, esse, ganho-o nos espetáculos que faço em todo o mundo. Não estou nada preocupado. É bom dizer que ganho menos 76 por cento só para se perceber até que ponto as coisas estão diferentes. No outro dia alguém me perguntava porque é que não voltamos a fazer o Herman Enciclopédia ou O Tal Canal. Sabe porquê? Porque cinco minutos desses programas equivalem a um inteiro dos que se fazem hoje.

A TV ainda é uma máquina trituradora, como muitas vezes foi apelidada?

Não tanto como antigamente. Passou de máquina de picar carne a prensa de fazer hambúrgueres para consumo rápido. Tudo é devorado no momento, com pouco critério, e no dia seguinte não fica nem a memória do papel pardo que os embrulhava. A televisão parece ter sido substituída por uma espécie de indiferença, onde tudo se banalizou – até a morte.

A RTP tritura mais do que as privadas ou é ao contrário?

A RTP é por enquanto, a única que pode incluir nos seus critérios de avaliação coisas subjectivas como “utilidade pública”, “defesa da qualidade”, “apoio criativo”, “ficção para fomentar emprego numa classe artística em crise”. As televisões privadas vivem só e cada vez mais em função dos números. Tudo o resto parece ser despiciendo. Não os critico. Já tive um restaurante e sei bem o muito que se tem de vender para se conseguir pagar ordenados e encargos.

“Tornei-me um objeto incómodo para o sistema”

O Herman já foi chamado de tudo, de génio a artisticamente morto, de novo-rico a deslumbrado. Passou inclusivamente aquele que deve ter sido o período mais conturbado da sua vida: o que o envolveu no processo Casa Pia. Nunca se fartou deste país?

De maneira nenhuma. Só quem não observa as causas-efeitos do sucesso pelo mundo fora é que acha que tem o exclusivo das desgraças. Como eu comecei a ir para fora muito cedo, percebi que as coisas são iguais em todos os sítios. Um tipo como eu, fora de circulação, cria uma quantidade de oportunidades a pessoas que estão à espera do momento. Imagine a quantidade de oportunidades maravilhosas que a saída do Carlos Cruz do panorama audiovisual deu a outros produtores e profissionais. Quantas pessoas já esfregaram as mãos de contentes…

Esse é um tipo de comportamento que faz parte do audiovisual?

Faz parte da natureza. Não estou a acusar o ser humano de nada. Na floresta amazónica as árvores que estão a nascer só vibram quando a árvore grande seca. O ser humano funciona assim.

Foi isso que aconteceu consigo em 2003, na altura em foi acusado pelo Ministério Público no caso Casa Pia?

Sabe que falei de mais no assunto, convencido de que estava a ajudar a clarificar qualquer coisa [pausa]. Por momentos achei que estava na Alemanha que nasceu do pós-guerra, onde o sistema judicial é extremamente controlado. Depois percebi rapidamente que não, que estava em Portugal, num Portugal que não tinha tido época nazi e onde as coisas têm a sua própria dinâmica. Quando nos tornamos um objeto incómodo, o próprio sistema tem maneiras de nos desativar.

Era um objeto incómodo para o sistema?

Tornei-me. Parecia aqueles cães pequeninos que passam o tempo a ladrar. Tinha dois milhões de espectadores todos os domingos e todos os domingos dava a minha opinião, que era precisamente contrária a tudo o que estava a acontecer. Pus-me a jeito. Se me colocasse aquela velha questão “mudava alguma coisa?” e à qual toda a gente responde “não, não”… eu diria que mudava milhões de coisas. Uma delas seria remeter-me ao silêncio.

Seria mais cauteloso?

Nem é isso. Cheguei à conclusão de que não serviu de nada. Não serviu mesmo de nada.

Sente-se revoltado consigo próprio?

Não. Fiz um ato de má gestão. Não deveria ter-me imiscuído em algo para o qual não era chamado, usando na altura o poder de ter tantos espectadores.

Depois disso, há portugueses que passaram a odiá-lo tanto como o adoravam?

Não lhe chamaria ódio, mas antes uma espécie de inveja. Há pessoas que não suportam o êxito continuado.

Estamos a falar do público?

Estamos.

“Aos 40 anos senti-me o rei do universo”

Disse estar onde quer, na RTP, a fazer o que quer. Esta é a melhor fase da sua vida?

[silêncio] Podia dizer que sim, mas estaria a mentir apenas por uma razão: Porque nós vivemos muito pouco. Se a nossa esperança média de vida fosse de 200 anos, dir-lhe-ia que ter quase 60, como tenho, corresponderia a uma alegria total. Mas quando a esperança média de vida é de 80 ou 90, ter esta idade é uma inquietação tão grande que tira a capacidade de sentir essa felicidade.

Qual foi então o seu melhor momento pessoal?

Os 40 anos… Senti-me o rei do universo. Lembro-me de que os comemorei em 1994 com um jantar que foi um luxo. As fotografias que tenho na minha casa em Lisboa estão cheias de Balsemões, de jovens Portas, do José Eduardo Moniz e a Manuela [Moura Guedes] muito novos, a Amália [Rodrigues], o [Pedro] Santana Lopes novíssimo. Eu tinha um êxito total. Estava a fazer o Parabéns e a Roda a Sorte [ambos na RTP]. Esse foi o meu auge: físico, monetário…

É um auge que lhe traz muitas saudades?

Quando me vem à memória, quando vejo fotografias, revivo-o, mas sem nostalgia ou tristeza. Saudades, sim, mas com aquela mesma sensação que um miúdo tem quando está a ver revistas pornográficas: não está lá, nem está a mexer naquelas mamas, mas está a adorar aquilo que está a ver. Também vejo assim o meu passado: dá-me verdadeiro prazer.

A televisão é como a vida: a seguir à fase de crescimento vem sempre a queda?

De maneira nenhuma. Posso dar-lhe imensos exemplos de pessoas cujo ponto baixo surgiu com a morte. A vida é que se encarrega de nos pregar rasteiras. O problema é que aos 40 anos não temos ainda muitas rasteiras, e as que temos são despiciendas. Diria que a partir dos 50 é as coisas começam a complicar-se.

Em que sentido?

Começam as primeiras mortes na família, os primeiros problemas por excesso de atividade, coisas que nos ultrapassam, que nos perseguem. No meu caso, meti-me em negócios e não tinha nada de me meter, em restaurantes e porcarias que só me infernizaram a vida, que me trouxeram problemas que ainda hoje estou a resolver em tribunais e bancos. Tive a infelicidade de trabalhar com um tipo de me desfalcou uma fortuna. Enfim…

Envelhecer significa não voltar a cair nos mesmos erros?

Envelhecer é um privilégio. Significa que se sobreviveu a estas vicissitudes. E digo isto porque tenho a felicidade suprema de não ter filhos. A quantidade de gente da minha geração destruída e infeliz por causa das coisas que foram acontecendo aos filhos é avassaladora. Um dos meus melhores amigos de escola teve três e todos eles se tornaram toxicodependentes enquanto estavam a estudar. Em colégios caríssimos, atenção. Dois deles já morreram e o terceiro está em tratamento. E o meu colega parece um velhote: acabado, falido, destruído.

É para fugir à responsabilidade que nunca quis ter filhos?

Desde o primeiro segundo que sei que não quero. A minha relação com um dos grandes amores de juventude acabou precisamente com o medo de constituir família. Percebi que do outro lado estava a ser feito de tudo para engravidar, sempre com aquele velho argumento: “Depois não quero nada contigo.” É quase uma obsessão para mim, uma convicção fortíssima, e peço sempre que a respeitem.

E tem sido fácil conquistar esse respeito?

Sabe que parece haver coisas que não podemos ser. Parece que é proibido não termos fé: fica tudo a perguntar “como é possível?”… No outro dia apanhei umas senhoras, religiosas, que me perguntaram se lhes dispensava um minutinho. Respondi-lhes que sim, se elas também me dispensassem um momento para lhes vender a minha tese. Como não quiseram, ficámos por ali. É como dizer que não se quer ter filhos: não se pode. Nem que não se tem clube de futebol.

Não sente, sequer, simpatia por um clube?

Pelo FC Porto, mas é por causa da minha personagem [Estebes] e pela maneira como sempre me trataram. Tenho uma grande gratidão ao próprio Pinto da Costa, que sempre aceitou ser convidado de programas meus e ajudou a potenciar um êxito meu. O lado clubístico não me diz nada.

“As religiões são sempre as maiores condicionantes da humanidade”

É verdade que gostava de ter nascido velho para ir ficando mais novo à medida que o tempo fosse passando? Ainda assim, passaria sempre pela fase da velhice, o que não alterava em nada os tais problemas por excesso de atividade…

O que é injusto é o nosso processo evolutivo. Geralmente, atingimos o nosso auge intelectual aos 70 ou 80 anos. Se tivéssemos 200 ou 300 anos de vida poderíamos esbanjar os primeiros cem em trabalho e em pagamentos, os segundos a aproveitar tudo o que tivéssemos construído, e depois, nos terceiros, iríamos a jogo. Assim, como está, é patético.

Pensar assim não é inquietante?

É a inquietação que nos move. As grandes conquistas da medicina devem-se ao pânico da passagem do tempo.

Em que sentido é que esse pânico o incomoda? É a morte?

Não é a morte. De semana para semana melhoro no que estou a fazer. Só agora me sinto nas posses das minhas faculdades para entrevistar bem. Então e agora tenho 60 anos? É ridículo.

Então a morte não o assusta?

Nada. Até gostava que houvesse um kit eutanásia que pudéssemos comprar na farmácia quando estivéssemos cansados. Seria maravilhoso. Recordo um ator que vivia da sua reforma no meio do mato, que não queria mais aparecer, que estava velhote, e cuja felicidade era ver televisão. Um dia perdeu a visão e com ela o seu último prazer, por isso acabou com a própria vida. É legítimo ou não? O mundo está cheio de invisuais felizes, que negociaram a sua condição, mas há quem não aguente, quem peça para que a sua vida acabe. As formas que temos para o fazer são é muito miseráveis.

Essa é uma visão de quem não é religioso.

As religiões são as maiores condicionantes da humanidade. São armas maravilhosas para as classes dirigentes dominarem os seus povos.

Não é estranho que, tendo sido educado na fé católica, se tenha tornado ateu?

Nunca acreditei em Deus. No caderno de encargos de todas as religiões pedem-nos para acreditarmos na vida para além da morte, mas nenhuma prova nada.

Pensa assim desde sempre?

Desde pequenino. É defeito ou vantagem de fabrico, não sei. A religião funciona como a válvula de uma panela de pressão e há panelas que lidam bem com a pressão. É o meu caso. O meu pai, pouco tempo antes de morrer, escorraçou um padre que queria dar-lhe a extrema-unção. Disse-lhe: “Tenha vergonha! Estou aqui a lutar para sobreviver e ainda tenho de levar consigo e com as suas histórias da carochinha?” Acho mesmo que é hereditário.

Estamos a chegar ao fim e o Herman pouco sorriu. O que é que o faz rir?

O Matt Lucas e o David Walliams dos Little Britain, os vídeos do Don Rickles, ainda e sempre os Monty Python, os shows do Viktor Borge, o Woody Allen, a Lucille Ball e a Carole Burnett.

Nenhum português o faz rir?

Tenho um grande carinho por todos os meus colegas e jamais cometeria a deselegância de ferir algum deles por omissão. Dos desaparecidos, amo o Vasco Santana, o António Silva e a Maria Matos.

É homem de chorar?

Não. Lembro-me, ao todo, de me ter emocionado duas vezes: no funeral do Carlos Paião e no velório do meu pai.

in Notícias TV

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